terça-feira, 22 de novembro de 2005

Um “Raio de Luz” chamado Bogaletch Gebre

Bogaletch Gebre nunca esquecerá o indescritível dia em que a sua tia a levou um homem para a circuncisão na sua aldeia na Etiópia, foi como mandar o cordeiro para o abate. A pequena criança aterrorizada de 6 anos gritava vezes sem conta numa dor desmedida à medida que a faca ferrugenta cortava os seus genitais, mutilando o seu jovem corpo para curvar a sua vida à servidão do homem. Por trás dos seus gritos ensurdecedores ainda ouviu a sua mãe implorar “Como gostaria que pusessem fim a isto!”
Apesar de outras raparigas da aldeia – incluindo as suas duas irmãs - terem morrido com infecções derivadas da mutilação genital, “sabíamos bem o que me tinham feito para me tornar uma mulher por inteiro. Chama-se “retirar o lixo”, não circuncisão,” disse Gebre a um auditório mudo numa conferência em São Francisco. Era a primeira vez que discutia publicamente o seu horror pessoal que deu forma à sua ambição de dedicar a sua vida ao enriquecimento, educação e formação e saúde pública das mulheres etíopes bem como à erradicação de qualquer forma de mutilação.
Depois da sua extrema determinação e sacrifícios feitos pela sua mãe, Gebre tornou-se na primeira rapariga da sua aldeia de Zato a ter uma escolaridade superior ao 4º ano. Frequentou a Hebrew University em Jerusalem e tornou-se na primeira mulher convidada a juntar-se à faculdade de ciências na Addis Ababa University.
Anos mais tarde, especialista em epidemologia e saúde pública pela University of Massachusetts, Gebre acordou da sua latência física e emocional e experimentou a raiva e o horror vivido enquanto fora apenas uma criança. “Compreendi o propósito da mutilação dos genitais femininos era a mutilação da minha mente, a mutilação da minha capacidade de viver a minha vida com todos sentidos por inteiro,” disse. “Não era suposto que eu tivesse educação, que pensasse por mim própria, porque sou uma mulher de uma pequena aldeia na Etiópia. Um sistema que olha para a mulher com um objecto de servidão. Uma mulher que começa a servir a sua família aos seis anos – antes mesmo de saber quem é. Quando casa é literalmente vendida à melhor oferta. Passa a outra fase de servidão, somos exploradas.”
Agora Gebre—cujo nome Bogaletch significa “raio de luz”— está determinada a fazer com que as outras raparigas etíopes tenham as mesmas oportunidades e educação e de realização própria. “Na Etiópia temos tanta fome de educação como de comida” explicou.
Em 1997, Gebre fundou o Kembatta Women’s Self-Help Center na Etiópia (KMG). “Comecei a sonhar em integrar saúde, educação e ambiente para as mulheres. Para que se vejam as mulheres como um todo.” Para angariar fundos correu 5 maratonas de Los Angeles. Em 1985, tinha fundado Parents International Ethiopia para angariar fundos para as vítimas etíopes da fome; virou-se então para a saúde pública e educação das mulheres. A União Europeia fundou a maior parte dos Kembatta Women’s Center, que inclui uma biblioteca pública e um espaço onde a mulheres podem discutir os seus problemas.
O KMG estabeleceu serviços clínicos, cooperativas de trabalho e desenvolveu projectos de contrução para água potável para aliviar as dores de costas das mulheres que são as encarregadas de trazer água para casa em vez de irem à escola. “As mulheres pobres não gostam de intervalos. Gostam de oportunidades. Assim que lhas damos elas desenvolvem-nas” disse Gebre. “Pediram-nos uma biblioteca, água, ponte, escola, centro para as mulheres, saúde pública para as mulheres. Tentamos que elas criem as suas próprias soluções.”
O KMG tenta dar as mulheres em Kembatta e às suas famílias o que elas necessitam para sobreviver e transformar as suas comunidades:
· Saúde: direitos de saúde relativamente à reprodução, incluindo a eliminação da mutilação genital feminina e a prevenção do HIV e sida;
· Ocupação: formação e vocações para trabalho;
· Ambiente: restauração dos diques de água e outras situações ambientais degradantes.
O maior objectivo do KMG é a erradicação de práticas como a mutilação genital da mulher e violações de raparigas e o seu casamento forçado. A mutilação genital leva a um contágio ainda maior de HIV uma vez que as mulheres e raparigas estão mais expostas devido às feridas vaginais. Na Etiópia as raparigas entre os 15 e 19 anos têm uma taxa de infecção HIV 5 a 7 vezes superior à dos rapazes da sua idade “Se não restaurarmos a saúde das nossas mulheres não podemos restaurar a saúde das comunidades” disse Gebre.
O KMG ensina às mulheres os seus direitos de acordo com a constituição da Etiópia e incentive as mulheres a lutar pelos seus direitos.“Quando a mulher descobre realmente quem é, ela acorda,” diz Gebre. Um grande número de mulheres recusa a mutilação das filhas, mesmo que sejam medicos a fazê-lo; as velhas facas ferrugentas estão a deixar de ter trabalho; as raparigas gritam pelos seus direitos e dizem NÃO!; os violadores já são detidos e presentes a tribunal; os casamentos são vividos na sua totalidade de emoções; a servidão começou a ser esquecida“.
“O que é bom para as mulheres é bom para a comunidade,” afirmou. Com o KMG, Gebre descobriu que o seu trabalho “não é mudar toda a sociedade, mas uma pessoa de cada vez. E que funciona.”
Bogaletch Gebre é reconhecida pela sua acção à escala nacional pelo seu papel fundamental na prevenção e controlo do VIH/SIDA, no fim da mutilação genital feminina e dos casamentos forçados.
A nível internacional, Bogaletch Gebre recebeu prémios como o African Achievement Award for Social Responsibility-2005 (Africa-EUA) e o Unsung Heroes of Compassion-2005 Award” (Wisdom in Action, EUA), tendo estado nomeada para o 1000-2005, Mulheres para a Prémio Nobel da Paz 2005 bem como para o prémio Má-Afrika 2003.
Bogaletch Gebre esteve, também ela, ontem em Lisboa para receber o prémio Norte-Sul. O mesmo prémio que deu uma vez mais a Bob Geldof, sem qualquer desprimor para o senhor pois foi merecido, o devido protagonismo. Contudo, é pena que até nestas coisas se note a importância que tem ser de um país que não africano. De Bob Geldof ouvimos falar, sabemos o que faz, é uma estrela. Já Bogaletch, que tanto sofreu e que tanto também tem dado, não conhecemos; se pesquisarmos na net em português ou até nos jornais a entrega do prémio verão apenas o nome da senhora de raspão. É apenas um raio de luz…

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