Helena e Vasco estavam casados há já 20 anos. Tinham um filho com 18. Ambos começaram a adoecer e depois de várias idas ao médico e exames acabaram por descobrir que ambos eram portadores de HIV. Entraram em pânico.Depois começaram as questões. Helena nunca tinha tido qualquer comportamento de risco e também nunca traíra o marido, como era possível? Vasco por seu lado achava o mesmo até que se recordou de um relacionamento que tivera durante a guerra colonial. Mas passado tanto tempo? A realidade é que: foi passado tanto tempo.
O HIV não progride de forma igual nas pessoas, além de que varia de acordo com o tipo do vírus.
Foi complicado para ambos. Ambos pensaram no estado actual do filho, ambos não sabiam como explicar. Passados uns tempos, ela acusava Vasco do que sucedera. Ele culpabilizava-se pela desgraça dos três. A relação começou a afundar-se.
Mas com muito apoio, em especial do próprio filho (que não estava infectado), ambos foram superando a crise. Foram sendo tratados e levando a sua vida. Aprenderam a viver um dia de cada vez e a abraçar tudo o que a vida lhes trazia. Encheram-se de coragem e esqueceram as divergências. Deram as mãos e caminharam. Caminharam até ao dia em que tanto Helena como Vasco não puderam mais e fecharam os olhos à vida.
Mas com muito apoio, em especial do próprio filho (que não estava infectado), ambos foram superando a crise. Foram sendo tratados e levando a sua vida. Aprenderam a viver um dia de cada vez e a abraçar tudo o que a vida lhes trazia. Encheram-se de coragem e esqueceram as divergências. Deram as mãos e caminharam. Caminharam até ao dia em que tanto Helena como Vasco não puderam mais e fecharam os olhos à vida.
Hugo e Vanessa eram amigos desde pequeninos.
Um dia ela experimentou fumar um charro e gostou. Ele fez o mesmo. Gostavam da sensação, mas depressa a sensação começou a ser pouca e experimentaram heroína.
Um dia ela experimentou fumar um charro e gostou. Ele fez o mesmo. Gostavam da sensação, mas depressa a sensação começou a ser pouca e experimentaram heroína.
Os anos passaram e cada vez o consumo era maior. Roubavam o que podiam em casa e fora dela para terem dinheiro, até ao dia em que Vanessa descobriu que o seu corpo rendia mais dinheiro.
Preservativo era algo que muitos dos seus clientes não queriam usar e um dia Vanessa acabou por se tornar seropositiva. Mas isso não constituiu um problema para o seu uso de drogas, embora tivesse tentado várias curas. Tomava a medicação mas podia consumir na mesma. Até que um dia cansada de tudo, cansada daquilo em que se tornara pôs fim à sua vida quando se mandou do viaduto em frente ao Casal Ventoso abaixo.
Hugo por seu lado, cúmplice do mesmo trajecto, continuou a injectar-se até que um dia acabou numa cama de hospital. Tinha sida e estava paralisado depois de um caldo enganoso que tinha cal à mistura.
Sofreu até ao fim e nada se podia fazer para o ajudar a não ser administra-lhe morfina, ajudá-lo a fumar um cigarrito às escondidas e esperar o fim.
Henrique era um homem bem parecido apesar dos seus 45 anos. Tinha um casamento de 20 anos e uma filha. Trabalhava em contabilidade e era uma pessoa extremamente afável, sempre preocupada com os outros.
Um dia conheceu o amor da sua vida e foram viver juntos. Só que o amor da sua vida, custou-lhe demasiado caro.
Henrique era homossexual. O casamento toda a vida tinha sido uma encenação e a filha, foi a única coisa que teve de bom. Agora estava na altura de se assumir contra tudo e todos e gozar a vida que sempre manteve escondida ao lado de Victor.
Victor tinha 26 anos, gostava de noites e de muitos “amigos”.
Henrique viu a sua vida cair aos poucos. Trabalhava para sustentar Victor e as suas noitadas, perdia-se de ciúmes por ele. Começou a reparar que as coisas iam desaparecendo de casa, começou a andar sem dinheiro e acabou por adoecer no dia em que Victor o deixou já sem nada. Henrique isolou-se, deixou de comer, deixou de querer viver e acabou até por perder o trabalho. No meio da depressão descobriu que Victor lhe tinha dado algo mais do que dores de cabeça: HIV.
A vida de Henrique foi terrível daí para a frente, entre quartos de pensão e rua, entre dias em que se podia comer outros que nem dinheiro para isso. Valeu-lhe a filha que lhe enviava dinheiro de França e o facto de se ter conseguido depois reformar.
Hoje, Henrique já conta com 10 anos de HIV. Levantou a cabeça e arregaçou as mangas. Não deixou de ser homossexual, não deixou de ser seropositivo mas tornou-se novamente num homem que vive para ajudar os outros e acima de tudo que se ajuda sempre a ele.
Estas foram algumas das histórias, ainda que muito resumidas, a que assisti e que me comoveram. Fiz voluntariado hospitalar em infecto contagiosos e até hoje agradeço a Deus a experiência. As pessoas não sabem a força que existe muitas vezes em alguém que está só à espera da sua vez. Aprende-se a dar valor a cada dia, aprende-se a compreensão e a partilha, aprende-se a agradecer mais umas horas de vida.
Eu pessoalmente aprendi que os meus problemas não eram nada ao pé dos daquelas pessoas e que a coragem que elas apresentavam ao admitir as suas histórias e ao enfrentarem mais um dia era algo que transcendia qualquer coisa. Infelizmente quase todos os dias tinha a triste notícia de que mais um deles tinha partido. Mas tudo se superava ao recordar os bons momentos passados.
Coisas simples como um desenho feito na cama do hospital ou um bonequinho de borracha foram prendas que ainda hoje guardo com carinho. Representam vidas, vidas que ainda que tenham sido mal conduzidas, um dia acabaram por ser de grande coragem e autênticas lições.
Hoje em dia as coisas em termos de tratamentos e de possibilidades já dão aos seropositivos uma vida mais prolongada, mais apropriada. No entanto, apesar dessas diferenças e de “alguma” abertura por parte da sociedade, existe uma coisa que nunca mudará: a dificuldade em aceitar que se é HIV positivo.
Por isso cada vez mais é preciso prevenir para que de hoje para amanhã não tenhamos que enfrentar.
Hoje em dia as coisas em termos de tratamentos e de possibilidades já dão aos seropositivos uma vida mais prolongada, mais apropriada. No entanto, apesar dessas diferenças e de “alguma” abertura por parte da sociedade, existe uma coisa que nunca mudará: a dificuldade em aceitar que se é HIV positivo.
Por isso cada vez mais é preciso prevenir para que de hoje para amanhã não tenhamos que enfrentar.
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