
“O João nasceu de uma gravidez de risco, não vigiada num hospital de Lisboa. Com um dia de vida foi transferido para a UCIN de outro hospital por diversos problemas, onde permaneceu 5 meses. Após este período, passou para o serviço de pediatria, tendo lá permanecido até aos 2 anos de idade.
Alguns dos problemas detectados, quer à nascença, quer mais tarde são: síndrome de privação, hérnia do hiato, alergia às proteínas do leite de vaca com reacção anafiláctica ao contacto acidental, infecções urinárias, doença pulmonar ligeira, malformação do ânus submetida a intervenção cirúrgica, etc. Encontramos assim problemas em vários sistemas do corpo humano (imunitário, digestivo, respiratório, genito-urinário).
Para além desta situação clínica que o obrigou a ficar durante 2 anos em meio hospitalar, com todas as restrições que lhe são inerentes (como, por exemplo, privação de um ambiente suficientemente estimulador e proporcionador de toda a afectividade e atenção necessárias a um desenvolvimento emocional saudável), o seu ambiente familiar também não soube compensar as limitações a que a criança já estava sujeita.
O João é o segundo filho do segundo casamento do pai. Tem duas irmãs: uma de 20 anos, do primeiro casamento do pai, que vive com a avó materna; outra de 4 anos, filha dos pais do João, e que está actualmente noutro centro de acolhimento.
O pai tem 40 anos e a mãe 39. Ambos são toxicodependentes e desempregados. O pai foi detido quando o João já estava na Ajuda de Berço. Os avós maternos estão divorciados, sendo a avó astróloga. A avó paterna tem 63 anos e é viúva.
Quanto ao comportamento desta família durante a permanência do João no hospital, as informações fornecidas pelos técnicos indicam que o único elemento que visitou a criança com regularidade foi a avó paterna. As visitas dos pais e avó materna foram raras e a reacção da criança à presença destes familiares era negativa. O avô materno nunca visitou o João.
Aquando da admissão da criança na Ajuda de Berço, aos 2 anos de idade, o João era um menino com um aspecto frágil e doente (percentis de peso e comprimento muito abaixo dos 5%), com medo de explorar o meio circundante e com reacções de ansiedade e insegurança face a objectos do quotidiano de qualquer criança (por exemplo, medo de pisar ou agarrar a relva e a areia, medo do comboio a passar, recusa a andar de escorrega). As carências emocionais eram evidentes (chamava mãe a todos os adultos e tinha os dedos feridos de tanto chuchar neles), e revelava um atraso de desenvolvimento global.
O padrão comportamental evidenciado pela família no hospital, volta a repetir-se durante a permanência da criança na Ajuda de Berço. A avó paterna, que visitou o João frequentemente, e com quem parece existir uma ligação afectiva, não revela disponibilidade para assumir o neto, considerando que os pais da criança também não apresentam condições sócio-emocionais para o fazer.
A mãe e avó materna verbalizam vontade em assumir a criança, mas nenhuma delas foi capaz de cumprir os programas de visitas combinados de acordo com a sua disponibilidade, visitando o João irregularmente. A reacção da criança a estas visitas caracterizava-se por choro intenso e afastamento. Assistia-se também ao agravamento da sua situação clínica após a visita. Apesar de alertada para o facto da criança necessitar de espaço e de uma aproximação progressiva, a mãe não respeitava este aspecto, revelando-se muito ansiosa no contacto com a criança. Entre a mãe e a avó materna verificava-se também a existência de conflitos, considerando a avó materna que a filha não tem capacidade para cuidar do João. A sua irmã que vivia com ambas, foi provisoriamente retirada à mãe por suspeita de abuso sexual.
Era urgente integrar esta criança num ambiente familiar que lhe permitisse um acompanhamento individualizado, onde pudesse receber afecto e atenção exclusiva. Com este objectivo, o João primeiro começou a passar os fins de semana em casa duma família voluntária, com quem parece ter estabelecido uma ligação afectiva e com quem se sente seguro.
Esta mudança tem-se reflectido quer a nível emocional (criança mais estável, confiante), quer no seu desenvolvimento global (que já está de acordo com a idade) ou mesmo em termos clínicos. Dois dos elementos desta família eram voluntários na Ajuda de Berço e logo surgiu uma empatia muito grande em relação ao sofrimento desta criança.Desde há alguns meses o João está a viver em casa dessa família, que está disposta a adoptá-lo. Pelas visitas domiciliárias que efectuámos e pela observação da relação com a criança, parece-nos existirem condições emocionais e sociais que proporcionem à criança um desenvolvimento harmonioso.”
Esta é uma das 4 histórias apresentadas no espaço Histórias da nossa História no site da Ajuda de Berço (www.ajudadeberco.pt), à qual não creio tenha ficado indiferente. Infelizmente é também a realidade de muitas das nossas crianças. Uma realidade que tem sido suavizada com a ajuda de profissionais e voluntários dedicados que no seu dia-a-dia se empenham por uma causa nobre: dar resposta aos problemas das crianças em risco, situação de abandono e vítimas de exclusão social.
A Ajuda de Berço nasceu na sequência destas necessidades, sentidas por um grupo de profissionais - médicos pediatras, sociólogos, enfermeiros, psicólogos, técnicos de serviço social e juristas. Foi fundada em 1998 e está situada no bairro da Quinta do Cabrinha, na Avª. de Ceuta, em Alcântara. Acolhe crianças dos 0 aos 3 anos, necessitadas de protecção urgente, face a situações que as coloquem em risco, tais como maus tratos, abusos sexuais, pais alcoólicos ou toxicodependentes, prostituição, falta de lar ou abandono e, além disso, promove, defende e dignifica a vida humana, através do apoio a mulheres grávidas sem condições e aos filhos delas nascidos.
Para ajudar a Ajuda de Berço poderá optar por várias situações (daquelas que não custam muito!): pode fazer-se sócio, enviar um donativo (dedutível no IRS), comprar o boneco Óo–Óo ou o “Colinho”, comprar o CD da Atxilipu ou o Disco do Dom; comprar o livro “As verdadeiras histórias dos meninos da Ajuda de Berço”, da Dra. Ana Monteiro e que está à venda nas livrarias Bertrand por € 9,5. Mais simples ainda é telefonar para o 760 300 410, uma chamada com um custo de 0,60 cêntimos + IVA; divulgar a Ajuda de Berço ou enviar um donativo em géneros (que por pouco que seja é sempre bem vindo) e até um simples clic todos os dias na Internet:
" Ajude-os a dar-lhe colo... vai ver que não pesa nada!”
Sem comentários:
Enviar um comentário