segunda-feira, 28 de novembro de 2005

"Ano 2070...


Acabo de completar 50 anos, mas a minha aparência é de alguém de 85.
Tenho sérios problemas renais porque bebo pouca água…
Creio que me resta pouco tempo. Hoje sou das pessoas mais idosas nesta sociedade.
Recordo quando tinha 5 anos, tudo era diferente!
Haviam muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro por aproximadamente uma hora.
Agora, usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele.
Antes, todas as mulheres mostravam as suas formosas cabeleiras.
Agora, raspamos a cabeça para mantê-la limpa sem água.
Antes, o meu pai lavava o carro com água que saia de uma mangueira.
Hoje os meninos não acreditam que utilizávamos a água dessa forma.
Recordo que haviam muitos anúncios que diziam para CUIDAR DA ÁGUA, só que ninguém lhes dava atenção.
Pensávamos que a água jamais poderia terminar.
Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados.
Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados.
As infecções gastrointestinais, enfermidades de pele e das vias urinárias são as principais causas de morte.
A indústria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam aos empregados com água potável em vez de salário.
Os assaltos por um bujão de água são comuns nas ruas desertas.
A comida é 80% sintética.
Antes, a quantidade de água indicada como ideal para se beber, eram oito copos por dia, por pessoa adulta.
Hoje, só posso beber meio copo.
A roupa é descartável, o que aumenta grandemente, a quantidade de lixo.
Tivemos que voltar às fossas sépticas como no século passado porque a rede de esgoto não funciona por falta de água.
A aparência da população é horrorosa: corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioleta que já não tem a capa de ozono que os filtrava na atmosfera.
Com o ressecamento da pele uma jovem de 20 anos parece ter 40.
Os cientistas investigam mas não há solução possível.
Não se pode fabricar água, o oxigénio está degradado por falta de árvores, o que diminui o coeficiente intelectual das novas gerações.
Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos.
Como consequência, há muitas crianças com insuficiências, mutações e deformações.
O governo até nos cobra pelo ar que respiramos: 137m3 por dia, por habitante adulto.
Quem não pode pagar é retirado das “zonas ventiladas”, que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar.
Não são de boa qualidade, mas pode-se respirar.
A idade média é de 35 anos.
Em alguns países restam manchas de vegetação com o seu respectivo rio, que é fortemente vigiado pelo exército.
A água tornou-se num tesouro muito cobiçado, mais que o ouro ou os diamantes.
Aqui não há árvores porque quase nunca chove e quando chega a ocorrer precipitação é chuva ácida.
As estações do ano foram severamente transformadas pelas provas atómicas e pela poluição das industrias do século XX.
Advertiam que era preciso cuidar do meio ambiente, mas ninguém fez caso.
Quando a minha filha me pede para lhe falar de quando era jovem, descrevo o quão bonito eram os bosques.
Falo-lhe da chuva e das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse.
O quanto nós éramos saudáveis!
E ela pergunta-me: - Pai! Porque a água acabou?
Então sinto um nó na garganta!
Não posso deixar de me sentir culpado porque pertenço à geração que acabou de destruir o meio ambiente, sem prestar atenção a tantos avisos.
Agora, os nossos filhos pagam um preço alto….
Sinceramente, creio que a vida na terra já não será possível dentro de muito pouco tempo, porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível.
Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreenda isto…
… enquanto ainda é possível fazer algo para salvar o nosso planeta terra!”

(Texto publicado na revista “Crónicas de Los Tiempos, Abril 2002)

Sem comentários:

Enviar um comentário