sexta-feira, 14 de outubro de 2005

O deserto que é a mentalidade humana

Segundo um relatório da ONU, cerca de 500 mil imigrantes ilegais chegam todos os anos à Europa, onde vivem cerca de 56 milhões de estrangeiros, dos quais 10% encontram-se em situação irregular. A tendência será para aumentar devido ao crescimento da população africana e às perspectivas sombrias quanto à sua evolução económica.
Para tentar responder a esta crise, a UE, com destaque para a Espanha, quer aprofundar a colaboração com Marrocos e Argélia, no sentido de combater o tráfico ilegal de seres humanos e desenvolver o apoio à formação de guardas-fronteiriços, assim como serviços de apoio.
A Comissão Europeia propôs o lançamento de um grande número de iniciativas, onde se inclui um programa ambicioso para promover uma política de boa governação e para o desenvolvimento de infra-estruturas. A proposta abrange programas para a promoção do comércio regional ou desenvolvimento das infra-estruturas, como estradas e caminhos-de-ferro, redes de energia e distribuição de água. Uma tentativa de redução a metade da pobreza no mundo.
Tudo isto está muito correcto e seria muito bonito se o repatriamento de imigrantes ilegais não estivesse a dar origem a acusações e pedidos de várias partes. Marrocos pediu para que a União Europeia pressione os países de origem dos imigrantes para que se encarreguem deles, não permitindo que continuem a deambular pelo país. A Comissão Europeia pediu, por seu lado, que a repatriação a partir de Marrocos respeite os princípios para "proporcionalidade" e da "dignidade humana". Agora resta saber se com tantos compromissos e acordos e tantas burocracias e papelada vamos passar à acção ou não passaremos das palavras. Os planos para o continente africano têm sido sempre tantos e pouco se tem visto, a não ser a continuada exploração de países que têm riquezas naturais como o petróleo, diamantes, etc.
Não basta o panorama de miséria em que vivem muitas pessoas, senão na sua tentativa muitas vezes desesperada de procurar uma vida melhor, também serem mal tratadas e abandonadas à sua sorte. Será que só nos ditos países desenvolvidos se tem o direito de imigrar? Não procuramos todos nós uma vida melhor?
É escandaloso o que as ONG’s têm vindo a constatar. Os Médicos Sem Fronteiras continuam a denunciar que as autoridades de Marrocos transportam imigrantes ilegais, muitos algemados entre si, para o deserto do Sul de Marrocos para ser repatriados, que os abandonam sem água e sem alimentos.
A organização afirma igualmente que entre os imigrantes encontrados há mulheres grávidas, crianças, doentes e feridos, tendo inclusive constatado que “ao tentarem passar as barreiras para Ceuta e Melilla os imigrantes são vítimas de violência por parte das polícias espanhola e marroquina, já que apresentam contusões provocadas pelo impacto de balas de borracha e bastonadas”.
O governo de Marrocos negou que os imigrantes tenham sido maltratados. O Governo espanhol também rejeitou as acusações, informando que apenas expulsou 73 imigrantes, na sequência de um acordo de repatriamento assinado em 1992 com Marrocos e depois de Rabat ter apresentado “todas as garantias” de que seriam bem tratados. Contudo, os Médicos Sem Fronteiras sustentam que “o repatriamento de imigrantes, tal como decidiram Espanha e Marrocos, para um país sem as capacidades mínimas de acolhimento, viola o artigo 3 da Convenção contra a Tortura”. Em entrevista ao jornal "El Periodico", José Antonio Alonso disse que a questão da imigração clandestina "não tem senão uma solução radical a longo prazo, o desenvolvimento de África”. "Entretanto, a Espanha deve proteger as suas fronteiras e aplicar as suas leis. A nossa política de imigração consiste em não receber a não ser os imigrantes a quem possamos dar trabalho e integrar socialmente. Os outros não podem entrar". E até aqui, Sr. Alonso, falou muito bem mas o melhor será ficarmos atentos à forma como essa entrada é vedada. Talvez nos devêssemos questionar se quando foi a guerra civil em Espanha, os espanhóis também foram assim tratados quando fugiam para os outros países, nomeadamente para o Alentejo português…
Mais sobre este assunto em:
http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=594530&div_id=291

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