terça-feira, 13 de setembro de 2005

O silêncio dos inocentes


A UNICEF estima que todos os anos morrem 3500 crianças nos países ricos vítimas de violência física e negligência. Portugal encabeça a lista negra, com uma média de quatro mortes em cada mil crianças.
Situações de violência continuada por parte dos próprios familiares onde o silêncio só é quebrado pelas marcas muitas vezes escondidas sob a roupa. Situações não denunciadas e situações por vezes mal apuradas dão lugar a casos como a Vanessa, o Daniel, a Catarina, a Joana e a tantos outros que ainda permanecem no silêncio. O silêncio dos inocentes, no verdadeiro sentido.
A Vanessa foi encontrada em Maio deste ano com as marcas que lhe teriam sido infligidas três dias antes pelo pai toxicodependente e pela avó. O relatório médico aponta para lesões anteriores que compõem o quadro de maus tratos anteriores. A Vanessa tinha 5 anos e boiava no rio Douro. Nesse momento, poderia estar a brincar na areia da praia.
O Daniel era surdo profundo, amblíope e deficiente motor. Faleceu na segunda-feira passada devido a uma infecção interna causada pelos repetidos abusos e violações, ao que tudo indica, provocados pelo padrasto que também lhe batia. Tinha seis anos e, apesar de não ouvir, podia ver sorrisos e os pássaros voar.
A Catarina foi maltratada pelo pai e pela madrasta até Outubro de 2003 a ponto de formar na cabeça uma massa líquida, consequência das repetidas hemorragias possivelmente causadas por puxões de cabelos. Tinha 2 anos e meio que deveriam ter sido de mimos e carinho mas que na realidade foram de escoriações, lesões na boca, fracturas nas costelas e superiores e arrancamento de gengiva.
A Joana tinha oito anos quando desapareceu e deixou pelo quarto desenhos de escola. As teorias do seu desaparecimento têm oscilado entre a sua venda, rapto, morte. Tudo indica que esta última será a mais provável mas a realidade é que a criança não apareceu até à data nem viva nem morta.
E nós? Onde estávamos? E nós? Vamos continuar a consentir este silêncio sofrido?

2 comentários:

  1. A maioria dos portugueses, segundo um estudo, considera legítimo bater em crianças, acha uma prática normal e saudável de educar alguém.
    A organização mundial contra a tortura fez uma queixa contra Portugal, em 2003 por não existir uma legislação que garantisse a protecção de crianças contra violência fisica ou psicológica. Somos a vergonha da CE.
    Nem sequer campanhas de sensibilização para os direitos das crianças são feitos nem as leis alteradas. Acho que tudo começa por mudar esta mentalidade medieval porque enquanto existir aquela convicção de que a tareia e as humilhações são formas de educação casos como os que referiste vão-se continuar a suceder, porque a fronteira entre uma coisa e outra é muito fácil de transpor.
    Por acaso também ia escrever um post sobre isto no nosso blog, porque acho realmente importante falar muito mais do tema, para relembrar que a violência doméstica não é só contra as mulheres, é contra as crianças e contra os idosos praticada também por mulheres, como tão bem referiste nos casos que enumeraste, logo as campanhas deviam ser mais abrangentes e as leis mais rigorosas.
    Post tocante e directo. Muito bom. Parabéns.

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  2. É lamentável aquilo que constatamos por esse mundo fora, e ainda mais grave vermos o nosso país a liderar uma tabela que deveria ser inexistente, para começar, e que ainda por cima diz respeito ao ser que deveria ser mais protegido deste mundo cruel.
    Não ha leis, não há senso comum, não há inteligência, não há sensibilidade, não há nada neste país e nestes portugueses de meia tigela.
    Tenho muito nojo de pertencer a uma nação que permite que se deixem acontecer casos e mais casos de violência e morte de crianças por maus tratos.
    Este artigo retrata muito bem os nossos casos, que em muito nos deveriam envergonhar, e em muitas cabeças deveria fazer comichão, em vez de aprovar decretos-lei para se mudarem frotas de automóveis para os ministros, ou para construirem IP's, ou seja lá para o que for.
    Infezliemente não avançaremos nunca com pessoas indiferentes a tais factos.

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